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Espécies mortíferas em Portugal

Espécies mortíferas em Portugal

Todas as espécies descritas neste artigo são mortíferas. A sua ingestão pode provocar lesão hepática grave, insuficiência renal e morte. Perante suspeita de contacto ou ingestão — ligue de imediato para o 112.

Aviso: Este artigo tem carácter informativo e não substitui a identificação por um micólogo experiente. Perante qualquer suspeita de intoxicação por cogumelos, procure ajuda médica de imediato — 112 (SNS emergência) e CIAV 800 250 250 (Centro de Informação Antivenenos, 24 horas).

A grande ameaça: cicuta-verde

Amanita phalloides (cicuta-verde; também conhecida como chapéu-da-morte ou rebenta-bois) — responsável por mais de 90% das intoxicações mortais por cogumelos na Europa e no mundo. Amplamente distribuída por todo o território português.

Por que é tão perigosa

  • Sabor agradável — não é amarga nem tem cheiro repulsivo. A intoxicação instala-se sem ser notada
  • Toxinas termoestáveis — as amatoxinas não se degradam ao ferver, fritar, secar ou marinar
  • Sintomas retardados — os primeiros sinais surgem só passadas seis a vinte e quatro horas, quando as toxinas já causaram danos graves no fígado
  • Fase de falsa melhoria — após os sintomas iniciais, o estado pode parecer melhorar temporariamente, criando uma falsa sensação de segurança
  • Dose letal reduzida — um único cogumelo de tamanho médio basta para intoxicar mortalmente um adulto

Como se apresenta

CaracterDescrição
Chapéu5–15 cm, do verde-pálido ao amarelo-oliváceo, por vezes quase branco
LâminasBrancas, livres (não aderentes ao pé)
Branco, com anel branco (saia) na parte superior
VolvaBainha branca em forma de saco à base — caracter essencial
CarneBranca, sem alteração de cor ao corte
CheiroFraco; nos exemplares velhos, desagradável e adocicado

Espécies com que se confunde

  • Cogumelo-de-prado (Agaricus campestris) — lâminas rosadas ou acastanhadas (nunca brancas!), sem volva
  • Ovo-de-rei (Amanita caesarea) — lâminas e pé amarelos (não brancos), coloração muito mais viva
  • Russula verde (Russula virescens) — sem anel nem volva, lâminas quebradiças

Mais informação: Cicuta-verde — artigo da espécie

Onde e quando ocorre em Portugal

  • Onde: por todo o país, sobretudo sob carvalhos (Quercus), castanheiros e em bosques mistos
  • Quando: sobretudo de outubro a dezembro, por vezes desde fins de setembro
  • Habitat: forma micorriza com árvores caducifólias

Outras espécies mortíferas

Anjo-destruidor (Amanita virosa)

Também conhecido pelo nome científico amanita-virosa. Contém as mesmas amatoxinas da cicuta-verde.

CaracterDescrição
ChapéuBranco puro, cónico nos jovens, depois convexo
Branco, com escamas floconosas, anel e volva
CheiroDesagradável e adocicado
OndeBosques de resinosas e mistos, mais raro em Portugal do que a cicuta-verde

Cortinário-da-montanha (Cortinarius orellanus)

Espécie particularmente traiçoeira: os sintomas da intoxicação podem surgir só passados dois a catorze dias da ingestão, quando já não é evidente a ligação com os cogumelos. A lesão renal é frequentemente irreversível.
CaracterDescrição
Chapéu3–8 cm, castanho-avermelhado, seco, com pequenas escamas
LâminasAvermelhadas, largas, espaçadas
Amarelado, sem anel, com cortina teleada nos jovens
ToxinaOrelanina — provoca lesão renal irreversível
FamíliaCortinariaceae
Onde em PortugalSob carvalhos e castanheiros, sobretudo no norte

Mais informação: Cortinário-da-montanha — artigo da espécie

Lepiotas pequenas (Lepiota spp.)

Algumas espécies pequenas do género Lepiota contêm amatoxinas idênticas às da cicuta-verde. Particularmente perigosas:

  • Lepiota brunneoincarnata — ocorre em Portugal, em parques e jardins
  • Lepiota helveola — em jardins e relvados

Distinguem-se do inofensivo chapéu-de-sol pelo tamanho muito menor (chapéu < 5 cm).

Falsa múrgula (Gyromitra esculenta)

Apesar do epíteto específico esculenta («comestível»), contém giromitrina — uma toxina volátil que ataca o fígado. Distingue-se das múrgulas verdadeiras pelo chapéu contorcido em forma de cérebro (nas múrgulas, o chapéu é reticulado em alvéolos). Em Portugal, é rara — ocorre sobretudo em bosques de resinosas de montanha.

Mais informação: Falsa múrgula — artigo da espécie

Inocibe-avermelhada (Inocybe erubescens)

Uma das inocibes mais perigosas: contém concentrações elevadas de muscarina — muito superiores às do amanita-vermelho. Provoca síndrome muscarínica grave (sudação, sialorreia, bradicardia, perturbação da visão). Sem administração de atropina, a intoxicação pode ser fatal.

CaracterDescrição
Chapéu3–8 cm, cónico e depois expandido com mamelo, cor do esbranquiçado ao palha, com rachas
LâminasInicialmente claras, depois acastanhadas
Branco, denso, sem anel
OndeParques, jardins, bosques caducifólios, em solos calcários

Mais informação: Inocibe-avermelhada — artigo da espécie

Padrões gerais

Quando os cogumelos são mais perigosos

  • Outono (outubro–dezembro) — época principal de frutificação das Amanita venenosas em Portugal
  • Após as chuvas — surgimento em massa dos corpos frutíferos depois das chuvas de outono
  • Tempo quente e húmido — condições ideais para a cicuta-verde

Quem está em maior risco

  • Imigrantes e turistas — desconhecem a micoflora local e confundem as espécies portuguesas com semelhantes do seu país
  • Apanhadores principiantes — sem prática de identificação no terreno
  • Crianças — mais sensíveis às toxinas devido ao menor peso corporal

Estatística

  • Segundo dados do CIAV, Portugal regista todos os anos dezenas de contactos por suspeita de intoxicação por cogumelos
  • A maior parte dos casos graves está associada a Amanita phalloides
  • Em 2023, investigadores (Nature Communications) identificaram um antídoto potencial contra as amatoxinas — o verde de indocianina (ICG), inibidor da STT3B, que em experiências em ratos duplicou a sobrevivência

O que fazer

  1. Estude o aspecto da cicuta-verde — pode salvar-lhe a vida
  2. Nunca colha Amanita brancas sem absoluta certeza da identificação
  3. Extraia sempre o cogumelo inteiro — a volva à base do pé pode estar escondida no solo
  4. À mínima suspeita de intoxicação — consulte Primeiros socorros

Fontes

  1. CIAV — Centro de Informação Antivenenos, INEM Portugal
  2. Brandão J.L. et al. — Mushroom poisoning in Portugal // Clinical Toxicology
  3. Wang Q. et al. — Identification of indocyanine green as a STT3B inhibitor against mushroom α-amanitin cytotoxicity // Nature Communications, 2023
  4. European Mycological Association — Toxic fungi of Europe
  5. Sociedade Portuguesa de Micologia
  6. BioDiversity4All / GBIF Portugal — registos de espécies

Aviso: Este artigo tem carácter informativo e não substitui a consulta com um micólogo experiente. Perante suspeita de intoxicação por cogumelos, procure ajuda médica de imediato (112).

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